Minha quebrada não tem filtro nem legenda,
Tem moleque de chinelo correndo onde a vida é tensa
Lá, onde o sol às vezes falha,
E a polícia vem mais armada que esperança nas calçadas
Minha vizinha vende salgado pra manter o aluguel,
Enquanto o boy de Alphaville posta “fé em Deus” num hotel
Tem skatista dividindo espaço com nóia,
E um grafite apagado mostrando nossa história
Nessa selva de concreto, o afeto custa caro
E o tiro sai voando onde devia estar o amparo
Mas eu sigo, pé no barro, mente ninja
Rimando o que vejo — SP cinza, alma linda
"Os mano falam em meta, em NFT, em ação
Mas no meu bairro a meta é voltar vivo do busão
Onde o corre é diário, o salário é miragem
E a fé é o que sustenta essa cidade selvagem"
Entre becos, lamento e fumaça,
Minha alma é forte, mesmo quando tudo ameaça
No caos, eu planto poesia
E cada linha é um grito pela nossa utopia
Cresci vendo o tráfico pagar o que o estado negou
O pão, o estudo, o tênis, o jantar que não chegou
O vizinho foi pro crime sem fazer escolha
Foi o mundo que virou as costas e abriu a porta da forja
Mas nem todo preto é bandido, nem todo fardado é leal
Tem herói de jaleco branco num postinho sem moral
E a tia do arroz com feijão vale mais que MBA
Ela sustenta cinco boca com o salário de um café
Ouvindo Racionais, aprendi a pensar
Que ser favela é resistir sem precisar se calar
Cê pode tirar o ouro, mas não leva a nossa essência
Somos linha de frente com armadura de consciência
Entre becos, lamento e fumaça,
Minha alma é forte, mesmo quando tudo ameaça
No caos, eu planto poesia
E cada linha é um grito pela nossa utopia
"Não é só rima, é documento
Da quebrada pro mundo, nóis solta sentimento
Faz do sofrimento uma ponte pra luz
Onde a paz não é luxo, é o que conduz…"