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Eu vejo gente sorrindo no almoço de domingo
Foto com legenda “gratidão”, taça de vinho, mais um bingo
Promoção no trabalho, carro novo na garagem
Selfie no espelho, emoji de foguete, nova viagem
E eu não tô dizendo que isso é pouco ou é ruim
Só que quando eu olho tudo, algo não encaixa em mim
Parece que o mundo se contenta com tão pouco de verdade
E eu querendo um sentido que não cabe na metade
Talvez eu seja exigente demais
Talvez eu seja estragado demais
Enquanto todo mundo celebra o normal
Eu fico pensando se não tem algo mais
Porque se esse é o mundo certo,
deve ser eu que tô errado
Todo mundo acha lindo
e eu só vejo um céu rachado
Entre a festa, a risada e o brinde no bar
Eu sinto um vazio que não sabe disfarçar
Talvez o problema seja o jeito que eu enxergo
Eu vejo rachadura onde chamam de “sorte num cerco”
No fim do dia, quando o feed apaga e sobra só o meu quarto
Eu só penso: “se isso é vida… então eu que tô errado”
Eu vejo gente feliz por não pensar muito
“É o que tem pra hoje”, e seguem o conjunto
Casa, boleto, casamento, foto em frente ao portão
E um medo enorme de olhar pra dentro e perder a direção
Achei que crescer era encontrar um grande porquê
Mas parece mais sobre aprender a fingir que tá tudo ok
Eu vejo brilho nos olhos se apagando bem devagar
E todo mundo chamando isso de “aprender a se adaptar”
Talvez eu que não saiba aceitar
Talvez eu que não queira sossegar
Enquanto todo mundo diz “faz parte”
Eu quero desmontar a cidade e recomeçar
Porque se esse é o mundo certo,
deve ser eu que tô errado
Todo mundo acha lindo
e eu só vejo um céu rachado
Entre a festa, a risada e o brinde no bar
Eu sinto um vazio que não sabe disfarçar
Talvez o problema seja o jeito que eu enxergo
Eu vejo rachadura onde chamam de “sorte num cerco”
No fim do dia, quando o feed apaga e sobra só o meu quarto
Eu só penso: “se isso é vida… então eu que tô errado”
Eu sei que também tenho medo de viver de verdade
De largar o trilho e ir na contramão da cidade
Porque é fácil criticar quando se tá paralisado
Entre o querer outro mundo e o medo de ser julgado
Às vezes eu queria só achar bonito também
Tomar minha cerveja e dizer “tá bom assim, tá tudo bem”
Mas tem algo dentro gritando que isso não é o bastante
Como se eu tivesse nascido com um defeito de horizonte
Então me diz, mundo,
sou eu que tô vendo demais
Ou é você que se acostumou com tão pouco e chama isso de paz?
Porque se esse é o mundo certo,
deve ser eu que tô errado
Mas se ser certo é não sentir
eu prefiro seguir torto e cansado
Com essa mania de querer profundidade em tudo
Mesmo que isso me deixe mais distante de todo mundo
Talvez o problema seja o jeito que eu enxergo
Mas é esse olhar torto que ainda me deixa desperto
E se no final eu continuar deslocado
Pelo menos eu vou saber:
eu vi mais do que me deixaram ver,
mesmo achando que eu que tô errado.