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Ela costurava o dia com calma,
Com o olhar perdido no chão.
Entre o pano e o copo etílico,
Guardava o resto de um coração.
Tinha um dom pra agradar o mundo,
Mas nunca soube dizer “não”.
E eu, menino, achando tudo simples,
Não entendia a confusão.
Um dia o portão se fechou devagar,
E o vento levou o perfume do lar.
Disseram que era melhor assim,
Mas pra mim, foi o começo do fim.
Ela me viu na rua e chamou meu nome,
E eu corri, sem olhar pra trás.
Medo, vergonha, ou dor sem nome…
Fugi do que me dava paz.
Os anos rodaram em bares e esquinas,
E eu brindei com o mesmo veneno.
Talvez tentando entender o porquê
De repetir o mesmo desatino.
O som das guitarras era abrigo,
A noite, uma amiga cruel.
Eu ria, mas via no espelho
O mesmo olhar que me acalmava.
Um dia a vi entre luzes frias,
Sorrindo pra outros, distante de mim.
Eu quis falar, dizer o que sentia,
Mas o tempo me prendeu assim.
O destino, sutil, esperou demais —
Dezembro guardou o adeus que não dei.
Trabalhei, calei, e segui,
Mas dentro, alguma coisa chorei.
Janeiro chegou com o som do hospital,
E a vida parou no corredor.
Toquei sua mão — era frágil, final —
E o silêncio foi tudo o que restou.
O pano da alma se rasgou sem aviso,
E o fio da história, enfim, parou.
Mas o tempo costura à sua maneira —
Em linhas que só o coração guardou.
Um dia, meu filho me disse:
“Eu lembro dela, consertava roupa.”
Fiquei mudo diante do inexplicável,
Como se suas almas já se reconhecessem.
E entendi que o amor não morre,
Apenas muda de lugar.
As linhas invisíveis que ela deixou
Ainda sabem me costurar.
“As mãos que costuram o mundo não descansam, só mudam de corpo.”