
时间:2020-10-29
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Doutor
Procure cura
Para a mulher deitada em sua cama
Que muito ela chama
E ninguém responde
E a dor se esconde em seu travesseiro
Mande remédio
Que a menina mesmo desprezada
Luta consigo
Para tirar alívio dos olhos aflitos
Ela não sabe que está doente
E o que sente é o sintoma
Da sua enfermidade
Seu pensamento a morde, doutor
E ela não pode lutar contra isso
Sem perder litros e litros de seu brilho
E ela já brilhou muito
Venha acudir
Que ela se refugia na raiva vazia
E são muitos os perigos
No lugar desconhecido
Onde essa que a prende
Arranca seus dentes e cílios
Não é bonito de ver, doutor
Então venha brevemente
Porque ela
Já está perdendo as forças
De tanto lutar com essa outra
De tantos braços e bocas que rosnam
E ouvidos que inventam e respiram
Não imagino que tipo de medicamento
Pode arrancar alguém de dentro
Sem que esse não se despedace
Em mil partes inúteis como a tarde
Preciso saber, doutor
Se ela sobreviveria sem anestesia
Por favor, mande remédio
Porque é muito sério
Que uma mulher tão linda
Fique fraca e cinza
E que não se perceba mais aquela
Que espera dentro dela
Ela organiza as coisas
Tentando organizar a si mesma
Mas é como um castelo de areia
Vem sempre a onda
Quantas vezes é possível
Começar tudo do início
Será que existe remédio para isso
Quanto sacrifício
Transformar a dor em ofício
Mande quem sabe tratamento
Unguento para seu tormento
Mande um remédio
Preciso curá-la
Porque a amo
E já não posso mais amá-la
Por favor, doutor
Pesquise se a medicina
Já entende
Como se faz nascer gente
De gente adulta
Não há luta mais dura
A vida é uma carnificina
E vai devorar a menina
E morrerá nela
Essa mulher que nunca nasceu
Quantas vezes
Ela correu aos olhos
Para ver lá fora
Encontrar quem passa
Apaixonar um homem
Quantas vezes
Ela desapareceu
Os olhos e a respiração respirando escuridão
O rosto desfigurado
Quanto estrago
Quem já viu
Algo capaz de causar isso a uma pessoa
Não ser capaz
De suportar o amor
Não ser capaz
De suportar a paz
Onde mais posso encontrar
Alívio para ela
Traga remédio, doutor
Que morrer de amor há muito não se usa
E enlouquecer é simples
Não é possível viver assim
Por tempo indefinido
Não é possível
Se perder pelas cores de algo invisível
Me pergunto o que acontece com seus olhos
Buracos negros absurdamente sólidos
Sugando tudo com sua gravidade
Olhos negros de verdade
Mande remédio urgentemente
Para um vulto que arde em febre
Para mantê-la leve
Para que ela desperte suavemente
Para que ainda acorde o amor na gente