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O mundo enfim silencia: cessaram as guerras, os celeiros transbordam (transbordam — transbordam)
As cidades respiram como cantos de ninar, as ruas correm como rios sem ondas (rios — rios)
As pessoas ocupam o tempo sobrante em ler umas às outras, dobrando o medo em marcadores de páginas (dobrar — marcadores)
Mas sob esse quadro perfeito, ecoa uma pergunta discreta (discreta — discreta)
Isto é o desfecho escatológico, ou só a continuação de uma aliança? (continuação — continuação)
Será o nirvana do Buda, ou a harmonia descrita por Krishna? (harmonia — harmonia)
Os profetas falaram em parábolas; hoje suas preces refluem em cadências múltiplas (cadências — cadências)
Quando todas as lâminas se tornam colheres, como nomearemos esta paz? (como nomear?)
Uns dizem providência (providência — providência), outros exultam na engenhosidade humana (engenhosidade — engenhosidade)
Há padres em capelas sussurrando, imames em meditação sob luz silenciosa (meditação — meditação)
Monásticos recitam mantras, brahminos entoam ślokas, xamãs transmutam oferendas em pó de estrelas (estrelas — estrelas)
Cada liturgia, cada salam, cada prostração compõe um coro maior (coro — coro)
Filósofos escrevem léxicos novos: pós-escatologia, soteriologia ecológica, conjecturas sobre reconciliação universal (conjectura — conjectura)
Éticos discutem redistribuição de valor; teólogos desenham os limites da salvação (salvação — salvação)
Termos erguem torres translúcidas: ontologia, epistemologia, teleologia (teleologia — teleologia)
Mas no entremeio dos vernáculos eruditos experimentamos uma verdade simples: o amor é a equação primeira (equação — equação)
Ainda assim, uma inquietude se move como sombra sobre a tranquilidade (sombra — sombra)
Se a escassez cessa e o conflito se resolve, o sentido se convertirá em mercadoria? (mercadoria?)
A fé poderá virar traje opcional em vitrines, algo a experimentar? (experimentar — experimentar)
Os templos irão tornar-se museus e os rituais, produtos culturais? (produto — produto)
Invocamos Abraão, clamamos pela misericórdia de Jesus (misericórdia — misericórdia)
Recitamos a compaixão de Allah, escutamos o sussurro de Avalokiteśvara (sussurro — sussurro)
O Tao ensina a seguir o fluxo (fluxo — fluxo), o yoga indica o caminho interior (caminho — caminho)
Todas as tradições permanecem lado a lado (lado a lado — lado a lado), cada devoção é um fio de luz (luz — luz)
No centro desta utopia aprendemos a questionar em vez de decretar (questionar — questionar)
As questões teológicas últimas voltam à forma mais simples: o que é amor? o que é sacrifício? o que é justiça? (justiça — justiça)
Usamos antigas escrituras como microscópios e invenções modernas como lupas (lupa — lupa)
Orações tornam-se diálogo, rituais tornam-se restauração (restauração — restauração)
Esta paz é sedosa e, ao mesmo tempo, estranhamente cortante (cortante — cortante)
Aprendemos humildade no excesso, praticamos moderação na fartura (moderação — moderação)
O fim não está nas respostas — está em admitir que o amanhã é um pergaminho não escrito (não escrito — não escrito)
Ainda assim: não percam a fé; não abandonem a esperança (não abandonem) — este é o nosso surgimento comum (surgimento — surgimento)
(Não sabemos como o amanhã será nomeado)
(Mas ele será o novo normal) — (novo normal)
Segurem firme a fé como quem segura uma lâmpada; aprendam reverência na mudança (reverência — reverência)
Pois seja qual for a forma do mundo, a fé continuará a indicar o caminho (indicar o caminho — indicar o caminho).