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Ninguém girou a chave, ninguém tocou no trinco
Mas há uma multidão neste apartamento.
São fantasmas de papel, extratos em vermelho
Me olhando com desprezo do fundo do espelho.
) A carta de cobrança repousa sobre a mesa
Com a frieza oficial de uma sentença.
E eu, que não tenho ouro, nem prata, nem crença,
Ofereço meu silêncio como recompensa.
Dizem que estou só, mas isso é mentira.
A solidão é cheia, a solidão respira.
Ela traz os erros que eu não corrigi,
Os amores baratos que eu devolvi.
A angústia senta ao lado e pede um cigarro,
Eu sou feito de vidro, mas me sinto de barro.
Prestes a quebrar...
Prestes a quebrar...
Ah, essa vontade de abraçar o fim...
Como quem abraça um irmão, um jasmim.
Quando a dívida da vida fica cara demais
E o lucro de viver não satisfaz.
O abismo me sorri com dentes de luar
Dizendo:"Vem comigo, não precisa pagar".
Descansar é o único luxo que eu quis comprar.
O telefone toca, eu deixo que ele canse
Não há voz do outro lado que me dê chance.
Só vozes que exigem, vozes de metal
Cobrando a prestação do meu juízo final.
Olho pra janela, o horizonte é um muro
Onde eu projeto a sombra do meu escuro.
Não é falta de gente, é excesso de mim
Transbordando a borda deste copo sem fim.
Ah, essa vontade de abraçar o fim...
Como quem abraça um irmão, um jasmim.
Quando a dívida da vida fica cara demais
E o lucro de viver não satisfaz.
O abismo me sorri com dentes de luar
Dizendo:"Vem comigo, não precisa pagar".
Descansar é o único luxo que eu quis comprar.
O silêncio...
As contas...
A porta...
E o fim.