"(...) Acredito muito nas iniciativas de se fazer algo, que por si só já valeria a atenção e o interesse de escutar o disco. Mais do que isso eles são bons músicos e conseguem representar de maneira muito bacana a alcunha que criaram sob o pseudônimo de Marujo Cogumelo. A mobilização deles e a vontade de se estabelecer musicalmente e viver de música é algo admirável. Com pesquisas na internete, visitas a estúdios eles acabaram optando por gravar em Curitiba.Lá eles encontraram um cenário propício para conseguir os resultados que eles sonhavam enquanto proposta musical. E o disco é o reflexo disso. Um disco de rock bem bacana, bem tocado, com timbres legais e com músicas fáceis de virar hit. A produção do disco está muito legal e eles passam a explorar melhor os elementos que só o estúdio pode proporcionar. Um sampler aqui, uns vocais/backings mais bem elaborados ali ou uma participação especial de instrumentos de sopro, guitarras invertidas. Enfim, novas possibilidades musicais que se abrem quando são explorados os elementos criativos que o estúdio proporciona. “Foi tudo muito tranqüilo, divertido e rápido, usamos aproximadamente 96 horas de estúdio, aprendemos muito com a gravação.O disco foi gravado praticamente como ensaiamos, alguns detalhes das gravações como por exemplo os backins vocal e solos de guitarra que foram feitos na hora. Mas o disco saiu da nossa garagem quase pronto.” Diz Lucas. Kássio complementa mostrando um outro lado não menos importante: “Acho que o mais bacana no meio disso tudo é o clima de estúdio que rola. Banda reunida e acompanhando a gravação de cada um dos integrantes, mixagens, edição e tudo mais. Os cinco baldes de café por dia, os churrascos feitos no estúdio e as risadas em si.”O disco se chama Jardim das Américas e segundo o vocalista Kássio, “a referencia vem do endereço onde ficamos hospedados em Curitiba. É nome do bairro onde fica o estúdio e coincidentemente o nome do condomínio onde ficamos hospedados na casa de um amigo. A gente precisava desse nome pra tudo... pedir informações, olhar as placas, correio e tudo mais. De tanto usar o nome, veio a idéia de colocar como nome do disco. Lembrei do Jardim Inglês, e pensei: por que não das Américas? A gente pode ser muito influenciado pelo rock inglês e tudo mais, mas a nossa principal influencia está aqui, onde a gente vive. É um jardim amplamente diversificado com tantas bandas legais, artistas e afins, que da pra explorar muita coisa boa e usar de referencia. Ficou Jardim das Américas.”O disco é um apanhado de músicas que são velhas companheiras e acompanham a banda desde os primeiros singles. Se pensar que a banda começou há três anos, muitas das composições refletem esse espírito juvenil e despretensioso, o disco oscila com as composições novas que já apresentam arranjos mais bem elaborados propostas musicais mais criativas. O guitarrista Lucas reforça: “O bacana desse primeiro disco é que ele envolve as primeiras canções que compomos (que são músicas mais simples) até as ultimas músicas que foram feitas para o disco, onde é visível o amadurecimento da sonoridade e das palavras.”“Boa Viagem” que era o primeiro single e a música do primeiro clip ganha uma regravação que ficou muito parecida com a anterior, mas com o timbres melhores e a mixagem mais legal que valoriza os instrumentos e deixa a música mais presente. Isso aconteceu com todas as músicas que já haviam sido lançadas no EP. Além das velhas conhecidas, é interessante perceber que novas possibilidades e referencias passam a ser exploradas na banda. “Aquelas idéias” é uma das músicas que ao meu entender, começa a apresentar as novas possibilidades sonoras da banda.Ali eles começam a flertar com um lado mais psicodélico com uma introdução murmurada e uma guitarra invertida que ajudam a criar o clima. Com um tom mais melancólico eles encerram a música fazendo ruídos, palmas, reverenciado Beatles e declamando trechos de “On The Road”. “Show de Horrores” explora o lado rock mesclando com um vaudeville psicodélico. A letra fala de um tal mago do chapéu verde limão que expõe os medos e os traumas do ser humano numa espécie de trem fantasma ao mesmo tempo divertido e assustador. What's your pleasure??? Poderiam muito bem perguntar aos participantes da brincadeira.“Asas de papel” é outra das canções que além da letra psicodélica tem uma levada de trompete meio mexicano que acaba dando uma perspectiva diferente para música. Quando perguntavam para os Beatles, eles diziam que faziam música. Musica é algo superior e pode incorporar um pouco de tudo. E não somente um estilo. O “começo do fim” representa isso de forma mais divertida, incorporando elementos e possibilidades, “o cenário muda, a consciência fica ali parada”. De maneira sutil as novas nuances começam a fazer parte da sonoridade da banda.Outra nova faceta da banda aparece na balada “Nova Manhã” que demonstra certa sensibilidade ao abordar temas um tanto quanto mais introspectivos. A música foi escolhida como single do disco e também para virar videoclip. Desta vez produzido pelo Brahma em parceria com o diretor de fotografia Ramiro Pissetti. Uma proposta um pouco mais ousada para os padrões alternativos, por se tratar de uma balada de quase 4 minutos, mais o preâmbulo e conclusão da história que elevam o clipe para quase cinco minutos.Ou seja, talvez as emissoras de TV não vão se interessar em passar algo tão longo. Mas isso não é problema quando se tem internet e as pessoas acessam as informações da mesma forma. O clip da música “Nova Manhã” que está no primeiro disco deles foi rodado numa jornada passando por várias locações nos municípios paranaenses de Curitiba, Antonina e Morretes. A proposta estética do material está muito legal e cria o clima perfeito para ajudar a difundir ainda mais o som da Marujo Cogumelo.Tudo acaba se somando, é um grande amálgama como diria Mautner. O artista nos dias atuais tem que ser cada vez mais completo e tem quem pensar a sua obra num conjunto de idéias, informações que são complementares. Se outrora, artistas muitas vezes gravavam com músicos de estúdio e acabavam nem sequer sabendo o que seria a capa do disco. Hoje os artistas tem a obrigação de pensar a obra no conjunto. Não é só música, são todos os elementos que estão presentes na elaboração de uma proposta musical que envolvem a estética de maneira plena proporcionando não somente uma imagem, mas um conjunto de sensações complementares.Acredito que seja impossível pensar um artista hoje sem querer ver o clip, acessar o site, ler uma entrevista, ver as fotos. Tudo acaba fazendo parte do processo, a crescente é visível e a Marujo Cogumelo está fazendo a sua parte. Que venham os próximos passos da banda e que estes sejam tão legais quanto os primeiros. A conseqüência disso é clara, mais shows, mais discos e mais possibilidades de reforçar de maneira profissional essa lacuna que se forma entre o mainstream e o underground, provando que pode ser legal viver no meio alternativo e pode gerar boas alternativas."Roberto PanarottoTexto completo: http://www.senhorf.com.br/agencia/main.jsp?codTexto=6223