“Chamar pelo nome o secreto da vida.” Elisa Lucinda Sou uma artista ligada na palavra. É ela que primeiro aciona meus motores e desenha as minhas impressões. Mesmo uma cena muda me vem em forma de palavra quando chega ao meu conhecimento. Uma cena escutada, uma cena vista, uma cena testemunhada, tudo caminha na estrada dos meus sentidos e quando chega a mim já o faz em forma de palavra. Portanto, me dei bem ao receber este presente: o CD de João Bernardo tem a palavra poética como asa-mor e dele vem como um chamado. O homem traz uma música que eu quero escutar e dentro dela, notícias. Ouvi muitas vezes o disco antes de escrever, deixei que ele se tornasse o meu cotidiano, o meu ambiente, que tocasse no meu banho, fosse trilha de minhas caminhadas e das minhas horas culinárias. Observei a sua capacidade de se espalhar nos espaços, considerei sua competência a ocupar os ares da casa. Descobri que cada faixa traz uma reflexão.Uma ideia. Há um olhar nesse poeta cantor e compositor que nos convida a refletir sobre o amor e a vida e a existência, ao mesmo tempo em que nos revela o tão precioso sentimento masculino. “Sentimento masculino, ó, como o almejo!” Sou freguesa desse benefício. Usuária desse bem. Quero dizer que desfruto com muito prazer dos frutos do pensamento emocional masculino. Isso mesmo: desfruto dos frutos. Trata-se de outra sensibilidade, mas não de uma sensibilidade menor que a feminine, é só diferente. Mas o seu lugar tão proativo num mundo obediente aos ditames machistas faz com que a gente desconsidere as emoções masculinas, porque acredita-se ainda que “assunto de homem costuma ser mais raso e sem envolvimento íntimo”. Ledo engano. Está aí o João Bernardo que não me deixa mentir, e não está só. Herdeiro natural, consciente ou inconsciente, de uma dinastia de pérolas de nossa MPB, J. Bernardo nos leva com sua voz sincera, despretensiosa, sua voz dele, sua voz nova, com ela nos leva a regiões que não estranhamos embora estreemos nela. Perfumam o território de nossa memória, exalando, ora um pouco a marola dos Novos Baianos em meio de vocais amigos, ora a intelgiência lírica de Sérgio Sampaio, ora parece a onda de Paulinho Moska com sua poesia sentida, ora o coração inventivo de Zeca Baleiro, ora a criatividade filosófica de Caetano Veloso, o sotaque poético de Arnaldo Antunes, ora a balburdia dos Doces Bárbaros, ora a liberdade dos Mutantes em uma acústica atmosfera afetiva de dar gosto. Foda. Todo fundo desse trabalho enxuto e vivo nos soa agradavelmente familiar e único, posto que não são canções previsíveis, que suas melodias não são óbvias e nem se encontram suas rimas em qualquer esquina. O cara conhece a língua e sabe por a melodia a serviço dela. O seu olhar de poeta nos garante uma investigação contínua, e nos confidencia a sua confissão. O seu mergulho no amor, sua romântica sociologia da dinâmica dos casais permeia com muita inteligência o disco todo e está disponível para tomar o lugar das vozes dos ouvintes. Das nossas vozes. Aquelas canções nos traduzem recheadas de sínteses simples como aquela da balada hit mais famosa do álbum. Você ouve uma vez e pega: “Voltando da sua casa ontem reparei que tinha ficado lá”. Os amantes conhecem essa frase, vivem o seu sentido, mas foi preciso que João Bernardo o dissesse, que nomeasse o mistério. Eu não sabia por que, mas passei dias cantando seus versos sem parar: “queria me enjoar de você…”. Aquilo começou a bater no meu coração com a familiaridade das velhas marchinhas, dos antigos clássicos Lupiciniais que habitam os porões de minha iniciação musical, desde criança exposta ao acervo de meu pai e de minha mãe, entregues aos “braços” de Dolores Duran, Herivelto Martins, Jair Amorim, Ataulfo Alves, Cartola, Wilson Batista, Noel Rosa... É tanta gente, é tanta lista e porque aquela baladinha ingênua se aninhou em mim com a intimidade daqueles bambas? Meu coração não parava de me bater como se meu peito fosse um teclado, um tambor.O que sei é que não escapa ao olhar joaobernardiano a fragilidade que o amor nos oferece e o gole de fortaleza que o mesmo amor, ao nos expor ao seu perigo, nos empresta. E é com um fino humor que o artista se vale aqui do planeta dos romances para entender o homem, desvendar os conhecimentos de si, os desconhecimentos de si, suas ausências: uma pessoa está fora de si quando você bate não tem ninguém lá dentro/ O problema é que ela pode querer voltar e a casa não mais existir/ Cuidado! Existir exige estar vivo e estar vivo é estar dentro de si. Vai assim o existencialista que usa nitidamente a poesia das canções para dar conta das inquietações, desejos, expectativas, erros e acertos que rondam o encontro humano. Mas nota-se com muita tranquilidade a eleição que ele faz do que diz, em relação às melodias. Não tem aquela letra apertada dentro do corredor da partitura. Comprimida ali. Não perguntei a ele qual o seu processo, mas não vejo ali as palavras aprisionadas aos rigores rítmicos. Não. As palavras têm liberdade e as canções idem, ambas caminham juntas para o inusitado muitas vezes, e para o muito simples outras vezes. Poesia e música vão muito bem para o caminho do quase previsível, que nunca é. No entanto, a música dele surpreende, tudo obedece ao recado. O império é dos sentidos. As intenções imperam nas decisões estéticas do rapaz que ainda faz a gente dançar com o que ele faz.Inteligente, sensível, ingênuo, menino, maduro, ousado, naif, cosmopolita e rapaz do interior, o mineirinho leva a gente a concordar com ele direitin: a gente leva a roça dentro da gente, é tanta coça que o mundo dá. Nos entrega o pássaro que bem trocadilha: No meio da cidade eu penso no pássaro que sou, passará a dor. Com o ukulele, uma espécie de violão de som aviolado de Vinicius Castro, e a deliciosa sanfona de João Bittencourt, as vozes dessa faixa tão simples nos levam pela mão para um rolé de urbanos dentro de nossa paisagem interior. Essa é a sua sofisticação. O álbum todo tem esse cuidado, essa qualidade de som e o dedo decisive do João Bernardo nos arranjos. Além de exímios violões, guitarras, baixo, bateria, com várias participações especialíssimas como a de Marcelo Costa, Rogério von kruguer, e Paulo Monarco, o cara tem a pandeirola de Matias Zibecchi, e mais violinos, exímios trombones, teclados, cellos, violas. Uma riqueza que vai levando a gente. Os músicos são todos bons. Está tudo luminoso. Não é um disco frio não tem a pinta asséptica de muitos trabalhos de estúdio. Há, por exemplo, uma orquestra constituída de caixa, surdo, caxixi, tamborim e apito do Matheus Xavier, mais as vozes, que leva a gente pro carnaval de rua dos nossos corações; Confiante de que estamos entendendo o que ele quer dizer, João Bernardo ousa com a sua voz sincera e de homem cotidiano, a nos levar pelo bico numa marchinha feita só, creiam vocês, de refrão. Tem um cuidado despretensioso de não pôr letra na cantarolada primeira parte, e nós além de aceitarmos isso, vamos displicentemente e sem perceber compondo aquele conteúdo, ocupando de pensamentos e de uma certa letra aquele espaço melódico. Digo isso porque cantarolamos com sentido, de modo que, quando desemboca no refrão não fui eu, foi o carnaval, estamos entendendo tudo. Todo mundo entende tudo. Está dito. Há coisas nesse terceiro disco de João Bernardo no tão surpreendente mundo musical nosso, que falam direto ao meu coração: você pensa ser uma flor de subúrbio mas é o sol de Saturno; vem que depois da dor tem uma varanda onde se deita o amor; preciso urgentemente falar com você que daqui pra frente só vou falar bem de mim; se eu fosse o Tom Jobim você não ria de mim, mas sou vagabundo e o mundo todo é meu. São versos dirpersos de várias canções dele, companheira do meu dia a dia que citei aqui. Em casa ele já está tocando no meu radio porque sua música cai muito bem na vida. Quando fui ver o show dele num barzinho no Leme, não estavam lá só fregueses. Lotado, havia um fã clube ali, talvez entre eles, amigos que compuseram a jam session que virou , o hit viral Queria me enjoar de você. Mas havia fãs, gente cantando aquilo como se já houvesse ouvido no rádio. Isso é um sinal de que João veio para ficar. Veio morar aqui com a gente. Veio apitar na casa linda da MPB, dando ao país a sua voz, trazendo para a sua geração o pensamento que a pode traduzir. Gostei mesmo do disco todo. Como poeta me senti respeitada, agraciada e como cantora me senti seduzida. A inspiração da canção o Veneno da vida nos ensina: o veneno da vida eu bebi quando conheci você, aprendi a desaprender, e aí explode numa sabedoria amorosa de tamanha preciosidade em Virandáda, que faz a gente querer escutá-lo a falar de novo e melhor do amor: o amor precisa de ar, é bicho que preso vira estátua. O homem, o artista que invade a cena contemporânea está chamando os faróis para ele. Prestemos atenção. É rico, é novo e traz boas histórias no bojo. Como cabe aos sonhadores persistentes, o guerreiro traz as suas ralações para chegar até aqui. É um disco de quem quer, como todo investigador da felicidade humana, ver de cara o mistério, chamar pelo nome o secreto da vida. Meu coração não para de me bater é um disco romântico e moderno. Embora o mote, o cardápio temático seja as coisas do amor e do lidar com suas regiões existenciais, o disco não sofre. O tom do trabalho não sangra, não perdura doendo. Ainda que trate das dores também. É isso. Aqui o que temos são dores tratadas à base de arte. O que é especialmente atraente é que João reveste com delicadeza e franqueza a sua tara em muitas letras. E é tudo poesia. Não há nada fora dela aqui. O erotismo, a sexualidade, escorrem pelas frestas das estrofes, dos versos, sem hipocrisia ou falsa elegância, aquela “elegância de cobertura”. Não. Se escarafuncharmos encontraremos no fundo o mesmo homem que vemos na superfície do mar de sua canção. As dez faixas não nos pedem nada e agradam ao coração dos românticos, dos modernos, dos amadores da vida. Concordamos com os sambas, as baladas, e sobretudo com os criativos e deliciosos arranjos onde vemos as decisões conceituais do autor. Cuidadoso e bem humorado ele se nos mostra a cara cantando o que pensa, sabendo que certas palavras lhe saem como uma bala que vai acertar o nosso coração. Acertou o meu.